2.5.23

Líderes abolicionistas

Na década de 1880 ocorreu o que ficou denominado como movimento abolicionista, que almejava o final da escravidão, o que ocorreu com a Lei Áurea, de 1888. Este movimento, que foi o primeiro movimento de massas da história brasileira, se espalhou por diversos grupos sociais e se materializou por meio da fundação de associações, clubes, jornais que defendiam a causa, além, é claro, do protagonismo dos escravizados por meio de fugas, revoltas e formação de quilombos. Neste processo, destacaram-se alguns líderes negros e este texto é para apresentar três deles. 

Luís Gama (1830-82), nascido livre na Bahia, era o filho de um fidalgo português e da africana Luísa Mahin. Foi vendido como escravo pelo próprio pai, tendo sido embarcado primeiro para o Rio de Janeiro, em seguida para São Paulo. Depois de ter conseguido se alfabetizar, Gama reconquistou sua liberdade e, além de se tornar literato e jornalista brilhante, se fez rábula (atuava sem formação jurídica) para defender judicialmente escravizados que a ele recorriam com as mais diferentes contendas, inclusive aqueles interessados em reivindicar carta de alforria para si ou para os seus. 

Ele sustentava publicamente que a escravidão era um roubo, por estar assentada numa transação ilegal, já que o tráfico atlântico havia sido proibido em 1831. Sua ousada atuação nos tribunais e na imprensa, bem como a participação em sociedades abolicionistas, interferiu nos encaminhamentos da chamada “questão servil”. Gama foi incisivo, como poucos, na exposição do quanto escravidão e racismo se entrelaçavam na cultura brasileira. 

No decisivo ano de 1880 foi criada, na corte, a Sociedade Brasileira contra a Escravidão, inspirada na British and Foreign Society for the Abolition of Slavery. Ali estiveram reunidos dois importantes abolicionistas negros: José Carlos do Patrocínio (1854-1905) e André Rebouças (1838-98). 

Mais conhecido como Zé do Pato, Patrocínio, filho da quitandeira Justina Maria do Espírito Santo e do padre João Carlos Monteiro, foi jornalista. Formado em farmácia, ele conquistou popularidade por conta de seus discursos inflamados tanto nas tribunas quanto nas praças. Por considerar a abolição imediata e sem pagamento de indenização a principal questão nacional, defendia que a população deveria deixar de se comportar como “cordeiro submisso” da classe política e realizar tais intentos a qualquer custo. Na opinião dele, para extinguir a escravidão, todos os meios seriam “lícitos e bons”, mesmo que escapassem dos limites da legalidade. 

André Rebouças era filho de Antônio Pereira Rebouças, homem negro que se tornou conselheiro do Império, e de Carolina Pinto Rebouças. Formado em engenharia, André defendia que a abolição deveria ser parte de uma grande reforma nacional capaz de assegurar melhores condições de vida para os libertos, o que incluiria a concessão de terras e educação para crianças e adultos. Na perspectiva dele, as feridas abertas pelo crime que era a escravidão só poderiam cicatrizar com a garantia de certos direitos aos egressos do cativeiro. 

Porém, o sonho de Rebouças não foi cumprido. A Lei Áurea largou os ex-escravizados à sua própria sorte, e a população negra buscou alternativas de se incluir nos novos tempos. 

Fonte: SCHWARCZ, Lília e GOMES, Flávio (orgs.). Dicionário da escravidão e liberdade. Sao Paulo: Companhia das Letras, 2018.

14.4.23

A polêmica do hino rio-grandense

Ao se recusarem a permanecer em pé e a cantar o hino, vereadores da bancada negra da Câmara provocaram debate que vai além dos versos

Correio do Povo - 09/01/2021 - Por Henrique Massaro

 

Já fazia pelo menos dez anos que Matheus Gomes tinha a mesma postura sempre que o Hino Rio-Grandense era executado em eventos ou cerimônias oficiais. Como outros gaúchos negros, ele silenciava, principalmente devido aos dois últimos versos da quarta estrofe: “Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”. Mas no dia 1º de janeiro de 2021, tomando posse como vereador de Porto Alegre pelo PSol, quando repetiu o gesto ao lado das outras quatro integrantes da maior bancada negra da história da Câmara, o manifesto tomou outra proporção.

Por mais que desde, pelo menos, a década de 1970, militantes e simpatizantes do movimento negro já se manifestassem contrários ao hino, nunca a discussão sobre haver racismo ou não em um dos símbolos do patriotismo gaúcho havia ganhado tanto espaço quanto no dia em que Gomes e as vereadoras Karen Santos (PSol) Laura Sito (PT), Bruna Rodrigues e Daiana Santos (PCdoB) se sentaram e se recusaram a cantar no Plenário Ana Terra. As discussões e reações, que ganharam projeção nos dias seguintes pela força das redes sociais, começaram no ato da posse.

A primeira delas foi da vereadora Comandante Nadia (DEM), que criticou os colegas. “O avanço de uma nação passa também pelo respeito aos símbolos”, afirmou a tenente-coronel da reserva da Brigada Militar na sessão. Em sua primeira questão de ordem como vereador, Gomes, que é historiador formado pela Universidade Federal do RS (Ufrgs), respondeu: “Não temos obrigação nenhuma de cantar um verso que diz que o nosso povo não tem virtude e, por isso, foi escravizado”.

A polêmica vai além da análise das nove palavras que formam os versos. Remete ao contexto histórico no qual a letra do hino foi inspirada, o da Revolução Farroupilha, que por sua vez está recheado de romantismos e mitos que tocam não só na paixão de tradicionalistas, mas no imaginário de boa parte da população gaúcha. Resultado de quase dois séculos de construções e contradições, a discussão não se encerra com a manifestação dos vereadores ou com a reação dos outros parlamentares, mas abre espaço para reflexão e a respeito do papel da história.

 

Há racismo no hino?

É impossível desassociar o hino Rio-Grandense da Revolução Farroupilha e a discussão racial em torno dele começa desde sua melodia, composta em 1838 pelo maestro Joaquim José de Mendanha. Natural de Minas Gerais, Mendanha era negro e estava à frente da banda do 2º Batalhão de Caçadores de Primeira Linha, do lado do Império, quando foi preso pelos farroupilhas na batalha do Barro Vermelho, na Vila de Rio Pardo. Aprisionado, o maestro compôs o hino da República Rio-Grandense. Mendanha teria sido obrigado a fazer a música, mas tradicionalistas argumentam que a composição pode ter sido espontânea pelo fato de o autor ter continuado vivendo no Rio Grande do Sul depois do fim da guerra.

A letra passou por mais de uma versão até chegar a uma próxima da atual, em 1933, escrita pelo poeta Francisco Pinto da Fontoura, conhecido como Chiquinho da Vovó. Mais de três décadas depois, em 1966, ainda passou pela última alteração, quando foi retirada uma estrofe, durante o período do governo militar: “Entre nós, reviva Atenas/ Para assombro dos tiranos/ Sejamos gregos na glória/ E na virtude, romanos.”

Voltando à polêmica atual, logo após a atitude dos vereadores na Câmara, o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) veio a público negar que existisse racismo na letra. A entidade afirmou que, no seu entender, a frase que causa polêmica no hino faz referência à submissão da então Província de São Pedro ao Império e, portanto, não é discriminatória. Na nota, divulgada dois dias após a posse na Câmara, o MTG afirmou reconhecer a importância dos negros na revolução e na construção da identidade regional, manifestando respeito na promoção de atividades culturais, incluindo uma programação alusiva à Semana da Consciência Negra em 2020. “Enquanto a comunidade negra, na qual integrantes do próprio movimento se inserem, se prende a este tipo de polêmica, perde um precioso tempo de ser protagonista de uma nova história que cabe aos próprios negros e brancos escreverem”, afirmou, na nota, Julia Graziela Azambuja, que assinou como “negra e diretora do Departamento de Manifestações Individuais e Espontâneas do MTG”.

O diretor artístico do MTG, Valmir Bohmer, entende que os parlamentares não são obrigados a se postarem em pé durante a execução do hino e, apesar de se dizer aberto para discutir construções sociais, afirma que não é a favor de uma modificação. Sobre a Revolução Farroupilha, Bohmer defende a versão dos Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) e que tem sido contraposta por historiadores nos últimos anos: a de que a República Rio-Grandense previa a liberdade para todos, incluindo os escravos. “Fatos lamentáveis como o ocorrido em Porongos (em que os negros escravizados do Império que lutavam ao lado dos farroupilhas foram traídos e mortos) e outros mais precisam de análise, mas não foram a base do hino.”

Ele também sugere que o verso envolvendo a palavra escravo pode ter relação com a estrofe que foi retirada em 1966, e não com os negros. Para embasar a ideia, cita uma frase atribuída ao pensador grego Epiteto (50 d.C – 135 d.C): “A escravidão do corpo é obra da sorte; a escravidão da alma obra do vício. Quem goza da liberdade do corpo é escravo se tem a alma acorrentada; quem tem a alma livre goza de toda a liberdade, embora carregado de enormes grilhões.” Por essa teoria, a estrofe mais polêmica do hino diria respeito à escravidão da alma, e não ao povo negro escravizado.

Bohmer comenta também que o autor da letra morreu muitos anos antes da atual versão ser aprovada e considera que, para encontrar racismo no hino, é necessária uma interpretação forçada. De acordo com ele, no entanto, o debate foi desvirtuado, e se tornou ideológico e extremista de ambos os lados. “O grande problema é a falta de respeito nos posicionamentos, tanto no lado que argumenta que não é, quanto do lado que argumenta que é racista”, avalia. O diretor do MTG afirma que sempre é possível fazer um reestudo histórico, mas defende que o hino é um símbolo do Estado e acredita que, no caso de votação popular, a maioria dos gaúchos seria favorável a manter a letra atual. “O MTG sempre estará a favor (da discussão), porque sempre busca a evolução do estudo, da pesquisa e da cultura, e é uma instituição que sempre rejeitou com veemência qualquer tipo de discriminação.”

No livro História Regional da Infâmia - O destino dos negros e outras iniquidades brasileiras (ou como se produzem os imaginários), o historiador e jornalista Juremir Machado da Silva evidenciou que a Revolução Farroupilha teve financiamento através da venda de negros escravizados no Uruguai. O fato é mostrado pelos pedidos de ressarcimento de Domingos José de Almeida à República e, depois, ao Império, que destinou verbas em 1845 para ressarcir os anistiados. Juremir comenta a polêmica frase do hino: “É curioso que as pessoas queiram tirar do contexto alegando que precisa-se ver o contexto da época”, observa, referindo-se ao discurso que relativiza a frase para negar que contenha racismo. “O contexto da época é de um país escravocrata, e quem são escravos? São os negros.” Acrescenta ainda que, além de não serem abolicionistas durante a Revolução, depois dela os revolucionários continuaram escravizando. Bento Gonçalves, por exemplo, presidente da República Rio-Grandense, morreu deixando 53 escravos. Para Juremir, a mudança da letra em 1966 é a prova de que o hino poderia ser revisto novamente, pois, mesmo que houvesse comprovação de que a frase não é racista, ela é, no mínimo, ofensiva para os negros.

Mas falar em modificar o hino passa por aceitar que a história ainda contada sobre a Revolução Farroupilha possa ser desconstruída “O passado todo tempo é revisto pelo presente”, explica Juremir, “porque coisas foram encobertas, distorcidas, inventadas ou mentidas”. No caso hipotético de votação popular, avalia, o resultado dependeria das informações que a população receberia, pois encontraria resistência em quem cultua uma revolução sem conhecer totalmente sua história.

O historiador Mário Maestri, doutor em História pela UCL, da Bélgica, tem uma visão que destoa de tradicionalistas, mas também de alguns historiadores. Ele entende que o hino Rio-Grandense é escravista porque a República Rio-Grandense também era. “Todos seus grandes chefes eram grandes escravistas, entre eles, o general Netto, que seguiu sendo um grande proprietário de cativos no norte do Uruguai depois da Farroupilha.” Porém, Maestri não acha que a polêmica estrofe faça referência ao escravizado negro, mas sim ao do espaço greco-romano. A palavra “povo”, por sua vez, segundo ele, refere-se apenas aos homens livres com algumas posses da época. Ele pontua, porém, que os chamados “homens bons” da época, na realidade, já consideravam os escravizados “sem virtude”. “A bancada negra da Câmara errou no particular e acertou no geral.”

 

História vs. tradicionalismo

O historiador e mestre em História pela PUCRS Jorge Euzébio Assumpção é radical com relação ao hino. Ele defende que não só os versos mais polêmicos, mas que toda a letra seja modificada, pois é uma exaltação dos feitos da Revolução Farroupilha, a qual a maior parte da população gaúcha foi contrária. Segundo ele, a estrofe em questão é racista pois espelha a mentalidade dos líderes farroupilhas, que mantinham a prática da escravidão na Constituição da República Rio-Grandense, assinada em Alegrete, em 1843. “Mesmo retirando a estrofe, não muda nada, porque era o pensamento dessa elite proprietária de escravos, de terras, que nada mais fez do que lutar pelos seus próprios interesses. Jamais se ouviu falar no ideal dos farrapos de uma reforma agrária, uma mudança para os pobres.”

A polêmica em torno do hino passa por uma discussão sobre tudo o que por muitos anos se ensinou sobre a Revolução Farroupilha, segundo ele uma manipulação histórica feita no final do século 19. Através do movimento do Partido Republicano Rio-grandense (PRR) de Júlio de Castilhos, criou-se uma mitologia em torno dos farrapos.

Um dos fatos mais representativos quando se fala no suposto racismo relacionado à Guerra dos Farrapos é o Massacre de Porongos, em 1844. Como conta o historiador, o general David Canabarro, ao negociar a paz, combinou com Duque de Caxias – à época barão – a entrega dos negros escravizados do Império que haviam sido convencidos a lutar do lado dos farroupilhas em troca de liberdade. “Era um meio de não se cumprir essa promessa aos negros e de acabar com a guerra. Esses negros, postos em liberdade, poderiam ser uma ameaça ao regime, ir para o Uruguai, promover rebeliões nas senzalas.”

A liberdade aos negros, de acordo com o historiador, era o único empecilho para pôr fim aos confrontos. Após a negociação com Canabarro, Caxias ordenou ao coronel Francisco Pedro de Abreu, o Moringue, o ataque ao acampamento dos negros, que era separado do dos brancos e índios. “No conflito, poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou índios, pois bem sabe que essa pobre gente ainda nos pode ser útil no futuro”, escreveu o então Barão de Caxias, como mostram documentos do Arquivo Histórico do RS A entrega dos Lanceiros Negros chegou a ser criticada, inclusive, por alguns líderes farroupilhas como Bento Gonçalves, que lamentaram a atitude de Canabarro. “A traição foi o mais vil ato da história gaúcha de que se tem notícia”, afirma Euzébio. O historiador defende a desconstrução do imaginário em torno da Revolução Farroupilha. Mas não se trata, de acordo com ele, de eliminar costumes, mas de separar o que é história e o que é folclore.

 

Obrigatoriedade de cantar

Quatro dias depois da cerimônia de posse, a polêmica envolvendo o hino ganhou um novo capítulo quando a vereadora Mônica Leal (PP) apresentou projeto de lei para tornar obrigatório que todos fiquem em pé e “em posição de respeito” durante a execução do hino Rio-Grandense no plenário. A proposta, que ainda precisa passar pelas comissões internas antes de ir à votação, acrescenta um inciso ao regimento interno do Legislativo. O objetivo, segundo ela, é garantir que a simbologia seja respeitada e pôr {m ao debate, que considera inadequado para o parlamento municipal.

“Essas polêmicas são frequentes e, para evitar essa perda de tempo, esse bate-boca, essa discussão, se estiver no regimento interno da Câmara, não vai ter o que fazer”, afirma. A manifestação de um vereador que se sinta discriminado pelo hino, na avaliação dela, não poderá ser a de se recusar a cantar e a ficar em pé. “Ele que saia, não participe do evento, é simples assim.” De acordo com a vereadora, manifestações como essa já haviam ocorrido durante a execução do hino na Casa, mas sempre por pessoas nas galerias. “Agora mudou de figura porque são parlamentares.”

Mônica, que com outros vereadores moveu recurso que, em 2018, fez com que a avenida da Legalidade e da Democracia voltasse a se chamar Castelo Branco [referência ao ditador brasileiro entre 1964 e 1967], entende que, além de não caber à Câmara buscar mudar o hino, não se pode alterar o que foi “consolidado ao longo da história”. Também acredita que não há racismo na letra. “Nunca achei, me chamou atenção essa preocupação de dizer que a estrofe é racista, fiquei até surpresa porque estamos vivendo uma era em que tudo é racismo, fico até preocupada.”

O vereador Matheus Gomes considera inconstitucional a proposta de Mônica Leal e acredita que o projeto sequer chegará a votação. Ele afirma que ainda estuda hipóteses de como a execução do hino poderia ser revista na Câmara, já que se trata de uma legislação estadual. Para modificar a letra, por exemplo, seria necessário um projeto de lei na Assembleia Legislativa. O artigo 27 da Lei Estadual 5.213, de 5 de janeiro de 1966 - que estabelece a bandeira, o hino e as armas da República Rio-Grandense como símbolos do Rio Grande do Sul - não fala sobre haver necessidade de executar o hino no parlamento municipal.

“O que eu fiz, na verdade, foi responder a uma tentativa de censura a um protesto que fizemos, e sugeri que a Câmara, sendo importante também para o Rio Grande do Sul, se coloque à disposição da sociedade porto-alegrense para debater formas de modificação das estrofes racistas”, destaca o vereador do PSol. Gomes pretende apresentar um projeto de lei para tornar obrigatório nas escolas municipais o ensino do Massacre de Porongos, mas acredita que a manifestação de 1º de janeiro possa ter sido o ponto de partida para uma discussão sobre a questão racial no Estado.

 

"O hino é a ponta do iceberg"

Para parlamentares como Karen Santos, que representava o PSol no plenário do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) na sessão de 18 de dezembro de 2020, a diplomação dos eleitos poderia ser o início de um período de mais diversidade na Câmara. Naquele dia, acabou permanecendo em pé na execução do hino. Achou que, ficando sentada, criaria uma polêmica desnecessária para aquele momento.

Mas no dia 1º de janeiro, frustrações mudaram o cenário. Karen, que foi a mais votada na eleição de novembro, perdeu a disputa para o cargo de presidente da Casa para Márcio Bins Ely (PDT), por 26 votos a 10. Pelo mesmo placar, em função do acordo dos demais partidos, nenhuma das legendas de oposição - PSol, PT e PCdoB, onde estão os únicos cinco vereadores negros - foi representada na Mesa Diretora. Após isso, durante a execução do hino, Karen, assim como Gomes e as outras vereadoras da bancada negra, não hesitou em se sentar e silenciar.

Tratou-se de uma manifestação para que fosse aberto um debate, que, segundo ela, foi desvirtuado. “O principal problema da nossa posse foi como fomos retirados de todas as possibilidades de estar nos espaços de poder e de decisão”, explica, acrescentando que mudar o hino não é prioridade no momento. Ela afirma que a luta é pelas pessoas sem moradia, pela preservação de territórios quilombolas e contra o desmonte de políticas públicas. “O hino é a ponta do iceberg, é querer negar todo esse contexto que a gente está enfrentando ainda, de segregação, violações e negligências."

16.8.22

Incendiar Borba Gato não é terrorismo

Porque homenagens à escravocratas como Borba Gato devem sumir do mapa – por Guilherme Soares Dias 

    Cerca de 50 pessoas colocaram fogo na estátua de Borba Gato, localizada na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, no bairro de Santo Amaro, em São Paulo, neste sábado (24). Uma bandeira com os dizeres “Revolução Periférica” foi estendida em frente ao monumento inaugurado em 1963. A estátua de Borba Gato, do escultor Júlio Guerra, homenageia é um dos foi um líder bandeirantes responsável por ações violentas e escravização de indígenas e negros. 

    A retirada da homenagem à racistas e escravocratas veio à tona em várias cidades do mundo após a morte de George Floyd em maio de 2020. Em países como Bélgica, Inglaterra, Colômbia e Martinica estátuas de escravocratas já caíram. Aqui no Brasil, a debate sobre a retirada é endossado por especialistas e faz reparação histórica. “Quem não contou essas histórias? Por que não as fez, nem as faz? Quais mecanismos do saber atuam para apagar essas memórias? A retirada (de estátuas) também joga luz sobre as práticas de racismo hoje, nos convida a refletir sobre a quem pertence o espaço público, que figuras devem lá figurar (se é que alguma deve), que demais opiniões importam nesse debate antes reservado aos ‘especialistas’”, arma o curador de arte e antropólogo Hélio Menezes. 

    “Ao se retirar o monumento racista, se retira a autoridade discursiva dos que se dizem dele especialistas. Retira-se também a máscara de quem os defende – não nos enganemos – porque estão querendo defender é a si mesmos. E a seus próprios pedestais”, conclui Hélio Menezes. 

    Monumento é a memória que tem que ser preservada para o futuro, ressaltou o doutor em Filosofia e teoria do direito pela USP Silvio Almeida em sua participação no programa Roda Viva, da TV Cultura “Algumas estátuas marcam derrotas (do povo negro) e são continuidades da escravidão. O espaço público tem que ser reconfigurado. Retirar estátua é ato político. Revisionismo histórico é não querer que o fluxo da história siga seu rumo. Tem gente que chora por estatua, mas não chora quando morre um negro”, pontuou.

    No caso de São Paulo, uma das estátuas mais emblemáticas de homenagem aos bandeirantes: a de Borba Gato, que fica em Santo Amaro, na região sul, carrega ainda um outro problema. “Fato: a estátua de Borba Gato é mais feia do que Satanás chupando uma fruta-do-conde. Poucas coisas diminuiriam mais a FIB (Feiura Interna Bruta) de Santo Amaro do que uma discreta remoção da estátua e sua substituição por, sei lá, uma muda de ipê-amarelo”, como lembra o jornalista Reinaldo Jose Lopes.

    Nabil Bonduki, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e ex-vereador de SP ressalta que há “dificuldade de romper com a história oficial de São Paulo, construída sobre uma farsa, solidamente fincada no ideário dominante paulista”. “A exaltação dos bandeirantes é profunda e está presente em um variado espectro de elementos”, escreve. 

    O chamado “racismo urbano”, homenagem à figuras escravocratas e ou racistas, e o apagamento de heróis negros é presente na maior parte das cidades brasileiras. Um debate que a sociedade ainda precisa fazer e o poder público se rever. O Guia Negro, site que fundei, criou um abaixo assinado para retirar os monumentos racistas de São Paulo. A intenção é apoiar o projeto de lei / da deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL/SP). A intenção é proibir honrarias para escravocratas e para qualquer pessoa que tenha sido condenada por prática de crimes contra a humanidade, exploração do trabalho escravo e racismo. 

    Os monumentos são materiais da história. Eles são utilizados para documentar o passado das sociedades e dos povos, em contextos atravessados por disputas políticas em torno dos temas, personagens e abordagens que são incluídos na memória coletiva. Assim foi elaborada a história oficial do Estado brasileiro, que está baseada em narrativas excludentes em relação às experiências dos povos negros e indígenas. 

    Substituir estátuas, nomes de ruas, rodovias, praças e aeroportos é urgente. São Paulo, por exemplo, tem apenas uma estátua que homenageia uma mulher negra: a mãe preta, no Largo Paissandu, esculpida pelo mesmo Júlio Guerra. Ela não coloca as mulheres negras em lugar de heroísmo ou potência, mas de subserviência, reforçando um dos estereótipos dados a pessoas negras. 

    A estátua que homenageia Zumbi, por exemplo, é minúscula e passa quase despercebida na Praça Antônio Prado. Por isso, tirar a estátua de Borba Gato, que tem dez metros de altura, e homenagear heróis que representem a maioria da população brasileira, negra e indígena, é tarefa importante que deve ser assumida por governantes, empresas e sociedade. 

Guilherme Soares Dias é jornalista, consultor, organizador da Caminhada São Paulo Negra e fundador do Guia Negro. 

4.8.22

Escravidão na África

Revista Pambazuka - Em seu livro e em outras obras, o senhor desconstrói o mito de um sistema escravista africano que justificaria e legitimaria as formas de escravidão que deram origem aos tráficos. Qual era o conceito de "escravo" na África antes dos tráficos liderados por europeus e árabes?

Kabengele Munanga - Em primeiro lugar, a existência do chamado "escravo" não é razão para aceitar a escravidão. Em qualquer circunstância, a escravidão é uma instituição desumanizante e deve ser condenada. O homem nasce livre até que alguém o escravize. Portanto, o próprio conceito está errado. O correto é "escravizado", não "escravo". Não há uma categoria de escravo natural. Porém, esse conceito já está enraizado na literatura.

Em segundo lugar, o conceito de "escravo" vem de outra visão de mundo, diferente da africana. Como em outras sociedades, na África existia a categoria de cativos, que eram prisioneiros de guerra ou pessoas que cometiam algum delito na sociedade e eram levadas por outros grupos étnicos. Os homens trabalhavam como serventes dos reis, príncipes e guerreiros, enquanto as mulheres se tornavam esposas e reprodutoras das famílias reais. Todos os filhos dos cativos eram livres. Em outros casos, famílias penhoravam algum parente quando havia grandes calamidades. Esses parentes poderiam trabalhar em outras famílias temporariamente ou para sempre, caso sua família original não tivesse condições de adquiri-lo de volta. [...]

Essa categoria de cativo africano foi traduzida como escravo. Mas não o é, pois o sistema escravista pressupõe que os escravizados sejam bem mais numerosos que os senhores. [...] Muitos reis e príncipes colaboraram com o tráfico negreiro para outros continentes, capturando negros de outros grupos étnicos para vendê-los como escravizados. Mas este fato também não justifica a escravidão.

USP ONLINE. Nova legislação e política de cotas desencadeariam ascensão acadêmica e inclusão dos negros, diz professor. Pambazuka News, 2010. Disponível em: https://www.pambazuka.org/pt/security-icts/nova-legisla%C3%A7%C3%A3o-e-pol%C3%ADtica-de-cotas-desencadeariam-ascens%C3%A3o-econ%C3%B4mica-e-inclus%C3%A3o-dos Acesso em 04-08-2022

 

Responda:

1. Para Kabengele Munanga, por que o conceito de escravo é equivocado e deveria se utilizar o conceito de escravizado?

2. Como era a escravidão na África?

3. O que caracteriza um sistema escravista?


30.6.22

Incas - Fonte 6


“A palavra ​quipu​ [...]é uma palavra quéchua, que significa nó [...]. Quipu é um dispositivo de gravação de informações, organizado por meio de cordões coloridos e nós, compostos de fios de algodão ou lã, ocasionalmente fibra de animais andinos como a lhama e a alpaca, ou, embora não muito comum, feito de cabelos humanos. As cordas dos ​quipus​ eram dispostas de tal modo que há uma corda principal [na horizontal], chamada de cordão primário, a partir do qual muitos cordões pingentes são pendurados [na vertical]”.

“Os resultados do estudo indicam que os quipus incaicos representaram os principais instrumentos de registro e reporte da gestão tributária adotados pelo Império inca, tendo na figura dos quipucamayocs a responsabilidade pela sua confecção”.


SCHMIDT, Paulo​ and ​SANTOS, José Luiz dos​. O uso dos quipus como ferramenta de controle tributário e de accountability dos incas. Rev. bras. gest. neg. [online]. 2017, vol. 19, n. 66, pp. 613-626. Disponível em ​http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1806-48922017000400613&script=sci_abstract&tlng=pt Acesso em: 18/2/2019.


Incas - Fonte 5

“Outro primor tiveram também os índios do Peru, que é o de ensinar-se a cada um desde moço nos ofícios necessários a um homem para a vida humana. Porque entre eles não havia oficiais especializados como entre nós, em alfaiates e sapateiros e tecelões, mas todos aprendiam a fazer tudo quanto em suas pessoas e casas precisavam, e proviam-se a si próprios... Outros ofícios, que não são para coisas comuns e ordinárias da vida humana, tinham seus próprios e especiais oficiais, como eram ourives e pintores e oleiros e barqueiros e contadores (contabilistas) e músicos; e mesmo nos ofícios de tecer e lavrar e edificar havia mestres para obras-primas, de que se serviam os senhores.
Mas o vulgo comum, como foi dito, cada um acudia ao que necessitava..., sem que pagasse a outro para tal..., para as coisas de casa e pessoa, como calçar e vestir e fazer uma casa e semear e colher e fazer as ferramentas e aparelhos necessários para isso. “

DE ACOSTA, Jose. História Natural e moral das Índias. ​In​: DE FREITAS, Gustavo. 900 textos e documentos de História. [​S. l.​]: Plátano, 2010

Incas - Fonte 4

INCAS: QUEM MANDA, QUEM OBEDECE

O caráter despótico da dominação está bastante claro nas seguintes palavras que o inca Atahualpa dirigiu ao conquistador Pizarro: "No meu reino, nenhum pássaro voa nem folha alguma se move, se esta não for minha vontade".
Nos postos mais elevados da hierarquia social e política, encontramos uma autocracia teocrática hereditária. O Inca, soberano supremo, é ao mesmo tempo uma divindade e transmite o poder a seus filhos. Na presença dele humilham-se até os mais altos e nobres dignatários, obrigados a apresentarem-se descalços, curvados e carregando um peso nas costas. Os direitos de vida e morte sobre seus súditos são absolutos, qualquer que seja o nível social deles.

POMER, Léon. Os Incas. In: História da América Hispano-Indígena. São Paulo, Global, 1983. pp. 32-34.

Observação: Note que a palavra inca se refere ao povo, e também era usada para denominar os diferentes soberanos desse povo, os Incas.