Como poucas centenas de
espanhóis submeteram milhões de índios, alguns tão desenvolvidos quanto as mais
avançadas civilizações europeias?
Beto Gomes [adaptado]
Em 1519, os espanhóis chegaram no
que é hoje o México. Iniciou-se a conquista deste território, concluída em
1521. Até hoje se pergunta como essa conquista aconteceu, dada a total inferioridade
numérica dos europeus frente aos nativos. A partir desse momento, se criaram
mitos sobre a conquista espanhola. O historiador Matthew Restall, da
Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, explicou esses mitos no livro “Os
sete mitos da conquista espanhola”.
1. Meia
dúzia de aventureiros – O mito dos homens excepcionais e seus feitos
extraordinários
Cristóvão Colombo estava em algum lugar do Atlântico, em 1504, quando a rainha da Espanha enviou uma esquadra para prendê-lo e levá-lo acorrentado para a Europa. Desde sua primeira viagem pelo Novo Mundo, seu prestígio já não era o mesmo. Sua insistência na mentira de que havia achado uma nova rota para as Índias, fato que lhe rendeu títulos e status, havia deixado a coroa espanhola irritada depois que Vasco da Gama contornou o Cabo da Boa Esperança e deu aos portugueses a liderança na corrida por um caminho mais curto para o Oriente.
A fama de Colombo estava
irreversivelmente abalada, ele caiu em descrédito e tornou-se um pária. Mas
como, depois de morto, ele se tornaria um herói? Para Restall, a ideia de que
ele foi um visionário, um homem à frente de seu tempo surgiu durante as comemorações
do tricentenário da descoberta da América, num país que também acabava de
nascer: os Estados Unidos. Colombo foi tomado como símbolo dessa nova terra:
aventureiro, destemido, um gênio a frente de seu tempo.
Esse é só um exemplo do mito de
que a conquista da América só foi possível graças à coragem e à genialidade de
meia dúzia de conquistadores e que surgiu desde os primeiros relatos dos
colonizadores enviados à Espanha. Para obter a permissão de explorar novas
terras, eles precisavam provar que a colonização era rentável e, para tanto,
escreviam qualquer lorota: omitiam fatos, inventavam histórias, exaltavam a si
mesmos. Biógrafos, cronistas e religiosos que participaram das expedições
ajudaram a construir esta imagem, por meio das cartas enviadas à coroa,
chamadas de probanzas de mérito (ou “provas de mérito”).
Pelo menos num ponto, porém, os relatos tinham razão: a desvantagem numérica dos espanhóis – fato que os levou a derrotas frequentemente ignoradas nas tais probanzas de mérito. Como, então, os conquistadores conseguiram expandir seus domínios e subjugar milhares de nativos? A resposta não está na genialidade militar de Cortez ou Pizarro. Em nenhum momento eles apresentaram novas táticas de guerra e, na maior parte do tempo o que fizeram foi seguir rotinas adotadas em conflitos anteriores ao descobrimento. Uma das mais importantes foi a aliança com os nativos (que veremos mais adiante). Mesmo assim, eles não abriram mão de procedimentos igualmente eficientes, mas que nada tinham de inventivos: o uso da violência indiscriminada para intimidar os resistentes. Nos casos extremos, pessoas eram decepadas ou queimadas vivas em praça pública, tinham braços e mãos amputados e suas famílias recebiam seus corpos, o que costumava garantir a submissão de outros nativos.
2. Nem
pagos, nem forçados – O mito de que os espanhóis que desembarcaram na
América eram todos militares
A esquadra de Colombo mal aportou
na praia da ilha de Hispaniola, no Caribe, e um grupo de soldados já estava
perfilado na areia. Vestiam armaduras reluzentes, carregavam as mais potentes
armas da época e aguardavam apenas a ordem de seu capitão para marchar em
direção às terras do Novo Mundo. Disciplinados, estavam prontos para enfrentar
o inimigo. Faziam parte de uma grande operação militar. Afinal, eram soldados.
Esta cena jamais aconteceu, mas passa a ideia, constantemente repetida em
filmes, ilustrações e livros, de que os conquistadores eram militares enviados
pelo rei e faziam parte de uma máquina de guerra.
Mas, então, quem eram eles?
Nobres aventureiros ou plebeus em busca da terra prometida? A rigor, nem uma
coisa, nem outra. Em sua maioria, os espanhóis eram artesãos, comerciantes e
empreendedores de pequeno porte, com menos de 30 anos de idade, alguma experiência
em viagens desse tipo e sem qualquer treinamento militar. Armavam-se como
podiam e entravam na primeira companhia que pudesse lhes render a quantia
necessária para investir em outras expedições. Assim, poderiam acumular
riquezas até receber as chamadas encomiendas – ou seja, o direito de
cobrar taxas e impostos sobre a produção de uma determinada área conquistada e
faturar em cima do trabalho de um grupo de nativos.
A maioria dos conquistadores não recebia ajuda financeira da coroa. Em geral, viajava por sua conta e risco em busca de status e dinheiro. Ou, no máximo, tinha um vínculo com eventuais patrocinadores, em nome dos quais as terras recém-descobertas eram exploradas. De qualquer forma, eles não eram pagos, tampouco obrigados a viajar. E muito menos soldados aptos a lutar pelos interesses da Coroa.
3. Guerreiros invisíveis – O mito de
que poucos soldados brancos venceram milhares de guerreiros índios
Quando o conquistador Bernal Díaz
de Castillo viu a capital asteca pela primeira vez, não conseguiu descrever a
visão que teve do alto do Vale do México. A metrópole pontilhada de pirâmides,
irrigada por canais navegáveis, engenhosamente construídos para serem a
referência de outras grandes cidades do império, poderia ser comparada às
maiores capitais europeias. Uma pergunta talvez lhe tenha surgido: como poucos
de nós poderemos subjugá-la? Seguindo o mesmo raciocínio, como apenas centenas
de europeus poderiam vencer os milhões de índios espalhados pelo continente?
Nem a “genialidade” de seus líderes, a pólvora ou o aço espanhol dariam conta.
Há algumas respostas para essas questões.
A primeira é que os espanhóis
sempre foram minoria nos campos de batalha da América, mas jamais lutaram
sozinhos. Os nativos nunca formaram uma unidade política, nem no caso de
astecas e maias, que fosse imune às rivalidades e intrigas. E os conquistadores
se aproveitaram, desde muito cedo, dessa desunião, conseguindo formar
verdadeiros exércitos índios, dispostos a eliminar seus inimigos. Na primeira
vez que Cortez chegou a Tenochtitlán, mais de 6 mil aliados davam cobertura aos
espanhóis, que eram cerca de 200. Na batalha final, alguns meses depois, ele
conseguiu reunir mais de 200 mil homens para tomar a capital asteca. “As
pessoas tendem a imaginar que os povos americanos eram unidos em torno de uma
identidade nativa. Na verdade, acontecia o contrário. Quando os espanhóis
chegaram à América, encontraram várias tribos rivais, que não precisavam de
mais que um empurrãozinho para entrar em conflito”, afirma Restall.
4. Sob a tutela do rei – O mito de
que, em pouco tempo, toda a América estava sob jugo espanhol
Uma combinação de fatores
contribuiu para a criação do mito de que a conquista total dos povos americanos
foi alcançada logo nos primeiros anos da presença espanhola. Muitas cidades, no
entanto, resistiram à dominação durante décadas. No Peru, alguns estados
independentes só foram dominados depois de 1570, após a morte de líderes como
Túpac Amaru. Quando os espanhóis fundaram Mérida, em 1542, boa parte da
península de Yucatán, na América Central, permaneceu sob a influência dos maias
– e muitas políticas elaboradas por eles sobreviveram até 1880. A experiência
espanhola na atual Flórida, nos Estados Unidos, foi ainda mais desastrosa. Pelo
menos seis expedições foram enviadas para lá entre 1513 e 1560, quando a região
finalmente foi controlada pelos europeus. Mas um dos exemplos mais curiosos vem
da bacia do Prata, onde os fundadores de Buenos Aires, em 1520, viraram jantar
de tribos canibais.
Outro aspecto que mostra que a
conquista não foi total era a relativa autonomia que alguns nativos mantiveram
em relação aos seus dominadores – condição sancionada pelos próprios oficiais
espanhóis, que procuravam não intervir nas regras que vigoravam antes de eles
chegarem. E não por acaso. Esta era mesmo a melhor forma de garantir a
manutenção das fontes de trabalho e da produção agrícola. Além disso, membros
da elite nativa participavam dos conselhos das cidades coloniais, onde eram
tomadas as decisões mais importantes. Ou seja, além de continuar influenciando
politicamente, eles mantiveram o status que tinham antes da descoberta.
5.
As palavras de La Malinche – O mito
de que a falta de comunicação levou ao massacre indígena
Foi na praça central da cidade
inca de Cajamarca que Pizarro e Atahualpa se viram pela primeira vez, em 1532.
Ao lado do conquistador, menos de 200 homens armados pareciam não temer os mais
de 5 mil nativos leais ao imperador. E, de fato, eles não tinham porque se
intimidar: a maioria dos locais não possuía uma arma sequer. O primeiro
espanhol a se aproximar de Atahualpa foi um frei dominicano que segurava uma
pequena cruz numa das mãos e a Bíblia na outra. Em poucos minutos, a batalha
havia começado. Mas, apesar da desvantagem numérica, os invasores conseguiram
dizimar um terço dos nativos. Atahualpa foi capturado.
Há várias versões sobre os
motivos que causaram a briga e sobre como a batalha de Cajamarca começou.
Francisco de Jerez, presente no local, escreveu que o imperador atirou a Bíblia
ao chão, porque não a entendia. A blasfêmia teria sido o motivo para Pizarro
dar o sinal de ataque. Na versão inca, no entanto, a ofensa partiu dos
espanhóis, que teriam se recusado a tomar uma bebida sagrada oferecida por
Atahualpa.
É praticamente impossível saber o
que aconteceu de fato naquele dia, mas o encontro sangrento entre incas e
espanhóis é um bom exemplo de como as supostas falhas na comunicação serviram
para justificar as ações dos europeus e, por consequência, a própria conquista.
Mas estas falhas não eram tão frequentes assim. O diálogo entre Montezuma e
Cortez, por exemplo, apesar de ter gerado diferentes interpretações, mostra que
os dois lados podiam se entender muito bem. Isso graças a uma figura central
durante todo o processo de colonização: os intérpretes. O papel deles foi tão
importante que um dos principais procedimentos de guerra era justamente
encontrar e “formar” tradutores. Alguns destes tradutores se deram tão bem que
alcançaram status inimagináveis para um nativo. Receberam encomiendas e
chegaram a ser citados nas cartas enviadas ao rei. O exemplo mais famoso é o de
La Malinche, a amante e intérprete que acompanhou Cortez durante anos e esteve
presente no encontro com Montezuma.
6.
O fim dos índios – O mito de que a
conquista só trouxe desgraça para os nativos
A derrota de Cortez era
inevitável. Havia horas que ele e seus guerreiros lutavam contra a união de
três exércitos inimigos na grande praça central de Tlaxcala, uma comunidade
nativa aliada aos espanhóis, e a derrocada do conquistador se aproximava a cada
golpe. Finalmente ele seria vencido. E foi mesmo. Ainda no chão, Cortez pôde
ouvir os aplausos efusivos da platéia. Aquela encenação do dia de Corpus
Christi ficou conhecida como o evento teatral mais espetacular e sofisticado do
ano de 1539. Numa curiosa inversão de papéis, o conquistador interpretou o
Grande Sultão da Babilônia e Tetrarca de Jerusalém. O papel dos reis da
Espanha, Hungria e França ficou com os nativos da comunidade.
O Corpus Christi de Tlaxcala não
foi o único festival do século 16 no Novo Mundo. A imensa maioria das colônias
Mesoamericanas e dos Andes encenou, dançou e até representou as batalhas contra
os espanhóis. Muitas dessas manifestações culturais sobrevivem até hoje. Mas o
curioso é que o objetivo não era reconstruir a conquista como algo traumático.
Ao contrário. Para os nativos, os festivais significavam uma celebração de sua
integridade e vitalidade cultural. “Eram eventos que transcendiam aquele momento
histórico particular e não estavam associados à lembrança de algo ruim. Até
porque o sentimento de derrota não era algo comum a todos os povos nativos”,
afirma Restall.
Manifestações desse tipo eram apenas uma das formas pelas quais os nativos mostravam que o impacto da conquista não foi tão traumático quanto sugere boa parte da retórica comum. Muitas comunidades mantiveram seu estilo de vida e outras tantas evoluíram rapidamente com a necessidade de se adaptar às novas tecnologias e demandas trazidas pelos espanhóis. Aprenderam novas formas de contar, construir casas, planejar cidades e, sobretudo, guerrear. Assim, houve nativos que enriqueceram com o comércio de alimentos e com o aluguel de mulas. O povo Nahua, por exemplo, depois de lutar ao lado dos espanhóis por anos, organizaram campanhas militares próprias e expandiram seus domínios para além das terras onde hoje estão Guatemala, Honduras e parte do México.
7.
Macacos e homens – O mito da
superioridade e da predestinação dos europeus
“Os espanhóis têm a governar estes bárbaros do Novo Mundo. Eles são em prudência, ingenuidade, virtude e humanidade tão inferiores aos espanhóis quanto as crianças são para os adultos, e as mulheres, para os homens”, escreveu o filósofo Juan Ginés de Sepúlveda, em 1547. O mito da superioridade espanhola é visto em todos os relatos do período colonial. Para Restall, ele vem desde as primeiras expedições e está ligado à justificativa de que os europeus tinham a aprovação divina para conquistar novas terras. Eles acreditavam que eram os escolhidos de Deus, os encarregados de levar o cristianismo a outros povos.
Existem outros fatores, no
entanto, que ajudaram a perpetuar este mito. Um deles combina a crença de que
os nativos seriam incapazes de evitar a invasão dos europeus porque eles (os
nativos) também acreditavam que os espanhóis eram deuses. Além disso, a
diferença brutal entre as armas dos dois grupos também ajudou a construir a
ideia da superioridade espanhola.
Mas Deus não foi o principal
aliado dos espanhóis. A expansão dos europeus só foi possível graças a três
fatores. O primeiro e mais determinante foram as doenças que os estrangeiros
trouxeram. Sem oferecer nenhuma resistência para varíola, sarampo e gripe, os
nativos morreram tão rápido que em poucas décadas tribos inteiras foram
extintas. O impacto das epidemias foi tão devastador que, um século e meio após
a chegada de Colombo, a população de nativos havia caído mais de 90%.
O segundo aliado foi a desunião dos nativos. A rivalidade entre diferentes grupos étnicos e intrigas entre vizinhos levou dezenas de milhares de pessoas a lutarem ao lado dos espanhóis. As armas que os conquistadores trouxeram para estas batalhas são o terceiro fator mais importante. Nas primeiras expedições, várias delas fizeram diferença. Cavalos e até cachorros acabaram entrando nos campos de batalha. Mas a mais eficiente foi mesmo a espada, mais longa e resistente que os machados dos nativos. No campo da guerra, Matthew Restall considera ainda outro fator. Os nativos lutavam em sua própria terra. Precisavam, portanto, proteger a família, defender suas casas, pensar no plantio, calcular a colheita e fazer o possível para não deixar que a guerra prejudicasse e interferisse no seu dia-a-dia. Por isso, eles sempre estiveram mais dispostos a negociar e a protelar os confrontos com os conquistadores. Já os espanhóis não tinham muito a perder. Basicamente, precisavam se preocupar apenas com suas próprias vidas. E com o que teriam de fazer para continuar conquistando novas cidades e acumulando mais riquezas.
Adaptado de: https://tokdehistoria.com.br/2015/02/02/os-sete-mitos-da-conquista-da-america-pelos-espanhois/ (acesso em 25-03-2026)
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