Embora traumática, a guerra foi o
ápice da "obra de unificação" do Brasil, ao conjugar energias de todo
o país para vencê-la. No início do conflito, voluntários se apresentaram
em todas as regiões do país; o imperador teve sua imagem fortalecida e o hino
nacional e a bandeira foram incorporados ao cotidiano dos grandes centros
urbanos, por meio de festejos cívicos, nas comemorações de vitórias ou nas
cerimônias da partida das tropas. Enfim, tornou-se fator de fortalecimento da
identidade nacional brasileira a existência do inimigo que, segundo o discurso
da época, era apenas Solano López, pois também o povo paraguaio era vítima
deste.
O Brasil enviou para a guerra
cerca de 139 mil homens, dos quais uns 50 mil morreram. Destes, a maior parte
não pereceu em combate, mas, sim, devido a doenças, especialmente a cólera, que
grassava nas péssimas condições dos acampamentos, e aos rigores do clima. Já
para o Paraguai, os valores são difíceis de estimar, já que não há estimativas
populacionais confiáveis para o período pré-guerra. O certo é que houve uma
mortalidade muito grande de população masculina, pois Solano Lopez, no ano de
1869, chegou a mobilizar velhos e crianças para a defesa do país.
No plano interno, o conflito foi
o ponto de inflexão que deu início à marcha descendente da monarquia
brasileira. Os gastos com cinco anos de guerra exauriram o Tesouro brasileiro e
o equilíbrio orçamentário do Império não foi recuperado. O conflito custou,
pois, ao Brasil, quase onze anos do orçamento público anual, em valores de
pré-guerra, o que permite compreender melhor o persistente "déficit"
público nas décadas de 1870 e 1880.
A presença de escravos
combatentes no Exército resultou na incorporação de alguns de seus interesses,
como a alforria, ao projeto hegemônico da Coroa e da classe dominante. Alforria
que, por sua vez, buscava encobrir o fato de o Estado monárquico brasileiro
fundar parte de sua força nos campos de batalha "num segmento da população
não reconhecido como portador de seus padrões culturais e morais". A
participação de negros livres e de escravos na guerra também contribuiu para
que a instituição da escravidão fosse questionada após 1870, tornando-se tema
de debate nacional.
O Exército, por sua vez, saiu do
conflito com um sentimento de identidade desconhecido anteriormente, forjado
com sangue nos campos de batalha. Após o final da guerra, foi crescente a
dissociação entre o Exército e a monarquia a ponto de, em 1889, ele ser o
instrumento dos republicanos para dar o golpe de Estado que depôs Pedro II e
criou a República brasileira.
Texto construído pelo professor,
baseado em: DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da
Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, p.274; 461; 483-484.
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