Blog destinado às atividades com QR Code na disciplina de História no IFRS Campus Veranópolis
13.4.26
Economia imperial
Parlamentarismo às avessas
Charge em “O Mequetrefe”, 09 de janeiro de 1878
Considera-se que o sistema parlamentarista tenha sido implementado no Brasil Imperial em 1847, a partir do decreto de criação do cargo de presidente do Conselho de Ministros (gabinete), indicado pessoalmente pelo imperador. Inspirado no sistema parlamentarista inglês, no qual o Poder Executivo é chefiado pelo primeiro-ministro, que governa com apoio do Parlamento e é responsável pela sua escolha, no parlamentarismo instaurado no século XIX o Poder Legislativo, em vez de nomear o Executivo, submete-se a ele e ao Poder Moderador, sendo, não por acaso, conhecido como "parlamentarismo às avessas". Apesar do nome, trata-se, portanto, de um sistema específico do Império Brasileiro, embora tenha semelhanças superficiais com o modelo adotado na Inglaterra.
Neste, era o imperador quem indicava o presidente do Conselho de Ministros que, por sua vez, indicava os demais ministros para formar o Ministério. Conforme Nabuco de Araújo, de forma irônica, "o Poder Moderador pode chamar a quem quiser para organizar ministérios; esta pessoa faz a eleição, porque há de fazê-la; esta eleição faz a maioria. Eis aí o sistema representativo do nosso país!". Esse sistema permitia que, em última instância, o imperador detivesse o controle sobre os principais representantes do corpo político imperial. [...] Com base em suas próprias convicções, na opinião do Conselho de Estado, das principais lideranças da Câmara e dos chefes dos dois partidos, poderia optar entre a dissolução da Câmara e a demissão do gabinete.
O resultado desse mecanismo foi que, em 50 anos de governo, houve 36 ministérios, com média de um ano e três meses de duração cada, cuja chefia se alternou entre os partidos Liberal e Conservador.
Retirado de: GRINBERG, Keila. Parlamentarismo. In: VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p.563.
Política imperial
“Até [...] 1864, as divergências
entre liberais e conservadores se prenderam quase que totalmente aos conflitos
regenciais entre as tendências de centralização e descentralização do poder
[...]. Os liberais eram por maior autonomia provincial, pela Justiça eletiva, pela separação da polícia e da Justiça, pela
redução das atribuições do poder moderador. Os conservadores defendiam
fortalecimento do poder central, o controle centralizado da magistratura e da polícia, o
fortalecimento do poder moderador. [...] No que diz respeito às relações entre ocupações e filiação partidária, os
dados mostram a tendência nítida de
se concentrarem os funcionários públicos no Partido Conservador e os
profissionais liberais no Partido Liberal. Este achado é consistente com a
ideia de que os conservadores foram os principais suportes da centralização e
do fortalecimento do Estado.
Quadro 1 – Filiação
partidária e origem social dos ministros (1840-1889).
|
|
Partido Conservador |
Partido Liberal |
|
Proprietários rurais |
47,54% |
47,83% |
|
Comerciantes |
13,12% |
8,69% |
|
Outros |
18,03% |
26,09% |
|
Sem informação |
21,31% |
17,39% |
Quadro 2 – Filiação
partidária e origem provincial dos ministros (1840-1889).
|
|
BA |
RJ-CORTE |
MG |
PE |
SP |
RS |
|
Partido Conservador |
12 |
19 |
5 |
8 |
4 |
1 |
|
Partido Liberal |
13 |
5 |
13 |
6 |
11 |
9 |
|
Sem partido |
1 |
4 |
|
|
1 |
|
Informações retiradas de: CARVALHO,
José Murilo de. A construção da ordem. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ/
Relume-Dumará, 1996.
12.4.26
Coronelismo
Chamou-se coronelismo ao domínio político exercido pelos “coronéis”, grandes proprietários e chefes políticos locais, principalmente no meio rural brasileiro, mas também em áreas urbanas.
Foi no período compreendido entre
1889 e 1930 que se deu o equilíbrio precário gerado pelas tentativas do Estado
federalista de processar a incorporação, num sistema nacional de poder, dos
donos de terra que ainda tinham em sua força econômica e no controle social
sobre a população rural os elementos capazes de afetar a estabilidade da nova
República.
O termo coronelismo foi criado
pelo jurista Victor Nunes Leal, em 1948, em sua obra “Coronelismo, Enxada e
Voto”. Origina-se de “coronel”, título militar, da época do Império, dado a uma
pessoa influente local para chefiar a Guarda Nacional. Com o tempo, a patente
de coronel deixou de designar um posto militar para se estender aos chefes
políticos regionais e aos grandes proprietários de terra que, em grande
maioria, mantinham forças paramilitares.
Para Vítor Nunes, o coronelismo
surge na confluência de um fato político e de uma tendência econômica, a saber,
a constituição dos governos estaduais como importantes unidades de decisão
política e a decadência socioeconômica dos senhores rurais. Emerge, portanto,
em momento de enfraquecimento do mandonismo e de expansão do poder estatal. Daí
vem o compromisso em que o Estado entra emprestando ao coronel seu poder e
prestígio, e o coronel comparece com os votos necessários à manutenção da
política do governador.
Figura respeitada e temida no
interior do país, o coronel tinha à sua volta numerosos dependentes, como
empregados, trabalhadores da vizinhança e moradores da cidade (pequenos
comerciantes, delegado, padre e outros). Estabelecia-se entre essa clientela e
o coronel uma troca de favores. O coronel conseguia emprego, nomeações,
proteção contra a ação da Justiça e contra inimigos. Em troca, o coronel exigia
da “sua gente” fidelidade total, especialmente nas eleições, quando todos
deveriam votar nos candidatos indicados por ele.
A clientela do coronel
constituía, assim, o que foi chamado de “curral eleitoral” e o voto controlado
pelo coronel ficou conhecido como “voto de cabresto”. Os coronéis garantiam
votos nos municípios aos presidentes de estado (governadores) em troca de apoio
e verbas. Quanto maior o “curral eleitoral”, maior era o prestígio do coronel
junto ao governo estadual.
No coronelismo, o político misturava-se
ao econômico, embora não seja aparente em um primeiro momento. Não é preciso
demonstrar, por exemplo, que as tarefas de um delegado de polícia ou de um
coletor de impostos têm tudo a ver com a sustentação dos interesses econômicos
dos donos de terra. A função do delegado está estreitamente ligada ao controle
da mão-de-obra e à competição com fazendeiros rivais. O coletor, de seu lado,
pode por sua ação, ou inação, afetar diretamente a margem de lucros dos que
estão dentro de sua jurisdição. Até mesmo a professora era importante para
manter submissa a população rural. Ignorar este aspecto dos cargos públicos é
que seria separar artificialmente o político do econômico. Como já foi dito, no
coronelismo no sentido mais restrito, quando se tratava de cargos públicos o
aspecto de dominação, de controle, era mais importante do que o de empreguismo.
A Revolução de 1930 veio
desequilibrar a situação em favor do Estado. O coronelismo teve sua morte
simbólica com a prisão dos coronéis baianos em 1930. Com a queda de Flores da
Cunha e o advento do Estado Novo, ambos em 1937, pode-se dizer que o
coronelismo como sistema estava morto, restando apenas sobrevivências isoladas,
tornadas objetos mais de curiosidade histórica do que de relevância política.
CARVALHO, José Murilo
de. Coronelismo. Disponível em https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/arquivo
Acesso em 12-04-2026.
DOMINGUES, Joelza Ester. Coronelismo. Studhistória. Disponível em https://studhistoria.com.br/qq-isso/coronelismo/
Acesso em 12-04-2026
Clientelismo ou política de clientela
Expressão cunhada e conceito
desenvolvido por Hélio Jaguaribe em seu trabalho “Política ideológica e
política de clientela”, publicado no Jornal do Comércio de 14 de maio de 1950 e
na revista Digesto Econômico de julho do mesmo ano.
O termo “clientela” foi
empregado, na expressão “política de clientela”, por derivação da expressão
latina equivalente e das relações que, no início da República Romana, existiam
entre o pater famílias e seus clientes. A origem da prática remonta à
Roma antiga em que pessoas (os clientes) ficavam sob a proteção de um
patrono em troca de serviços e obrigações bem definidas. O patrono era o
protetor, o patrocinador e o benfeitor dos clientes, uma proteção chamada
de patrocínio. Os patronos protegiam clientes individuais da coleta de
impostos e de outras obrigações públicas. Em troca, os clientes davam-lhe
dinheiro ou prestavam serviços.
Por política de clientela se
entende, basicamente, todas as formas de ação política, quer no âmbito do
Estado e suas subdivisões territoriais ou administrativas, quer no âmbito de
qualquer coletividade dotada de alguma institucionalidade, orientadas por um
sentido de troca de vantagens específicas entre o promotor de tais ações, o
político de clientela, e os grupos sociais junto aos quais opera, a clientela
de tal política.
A forma típica de política de
clientela consiste na concessão de empregos públicos para determinadas pessoas
ou na execução de serviços públicos, em benefício de certas áreas ou grupos, em
troca de apoio político para o promotor de tais iniciativas.
A política de clientela se opõe à
política ideológica ou programática, exercida em função de determinadas
concepções relativas ao que convenha, genérica ou especificamente, a um
determinado grupo social, em determinadas condições.
DOMINGUES, Joelza Ester. Clientelismo. Studhistória. Disponível em https://studhistoria.com.br/qq-isso/clientelismo/ Acesso em 12-04-2026
JAGUARIBE, Hélio. Política de clientela. Disponível em https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/arquivo Acesso em 12-04-2026
Questão para além da definição do conceito
Qual é a origem do conceito de clientela e o que acontecia na origem?
Política do Café com Leite
Campos Sales conseguiu também
estabelecer um equilíbrio nas disputas pelo poder federal, como o rodízio de
mineiros e paulistas na presidência e na vice-presidência da República – a
chamada política do café com leite.
Chamou-se política do café com
leite a predominância das oligarquias paulista e mineira no governo federal
durante a República Velha ou Primeira República. Ela derivou da “política dos
governadores” implantada a partir da presidência de Campos Sales (1898-1902).
O termo “café com leite” advém da
influência do setor agrário de São Paulo, grande produtor de café, e de Minas
Gerais, produtor de leite e maior polo eleitoral do país de então. Os
representantes do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano
(Mineiro) tornaram-se então predominantes na política nacional. Para não
desagradar os demais estados, faziam acordos políticos, especialmente com os
estados com o maior número de eleitores, como a Bahia e o Rio Grande do Sul.
Exceções à política do café com leite:
- Nilo
Peçanha (1909-1910) – do Partido Republicano Fluminente, assumiu a
presidência após o falecimento do mineiro Afonso Pena.
- Hermes
da Fonseca (1910-1914) – militar gaúcho, do Partido Republicano
Conservador, eleito por conta da falta de acordo do PRP e do PRM.
A política do café com leite permitiu à burguesia cafeeira paulista
controlar, no âmbito nacional, a política monetária e cambial, e a negociar no
exterior empréstimos para a compra das sacas de café excedentes. Essa
intervenção garantia lucros seguros aos cafeicultores. Para Minas Gerais, o
apoio a São Paulo garantia a nomeação dos membros da elite mineira para cargos
na área federal e verbas para obras públicas, como a construção de ferrovias.
Assim, enquanto São Paulo, financiava seu próprio sucesso econômico através de empréstimos externos, os outros estados, especialmente no Nordeste, empobreciam-se, não somente pela sua falta de adaptação ao sistema capitalista do século XX, mas, também, à fraca distribuição de recursos por parte do Governo Federal.
DOMINGUES, Joelza Ester. Política do Café com Leite. StudHistória. Disponível em https://studhistoria.com.br/qq-isso/politica-do-cafe-com-leite/ Acesso em 12-04-2026
Questões para além da definição do conceito.
Quais as vantagens para São Paulo e Minas Gerais e as desvantagens para outros estados por conta da política do café com leite?
República Oligárquica
Embora oligarquias sempre tenham
existido no Brasil, entende-se como República Oligárquica o período compreendido
entre a instituição do regime republicano, em 1889, e a Revolução de 1930.
Etimologicamente, oligarquia significa “governo de poucos”.
Entre as características dos
regimes oligárquicos que estiveram presentes na Primeira República podemos
destacar: o parentesco e a lealdade pessoal como critérios para o recrutamento
político; a estabilidade baseada na contenção de minorias oposicionistas; o uso
de instrumentos extralegais para a manutenção de privilégios e benesses; a
prática de relações políticas tradicionais, que não levavam em conta a meritocracia
como mecanismo de ascensão política; a presença de expedientes autoritários,
usados com o fim de se manter o poder concentrado na mãos dos mesmos grupos; e,
por fim, a presença de uma maioria politicamente apática, que não se
interessava em integrar a comunidade política.
Retirado de: SCHWARZ, Lília;
STARLING, Heloísa. Dicionário da República: 51 textos críticos. São Paulo:
Companhia das Letras, 2019.
Questão, para além da definição
do conceito:
Quais são as características do regime
oligárquico apresentadas na Primeira República?