22.10.24

Mato Grosso

 

Os embates políticos na província do Mato Grosso relacionados à independência do Brasil tiveram como principal foco de tensão a disputa pela capital entre as cidades de Cuiabá e de Vila Bela da Santíssima Trindade (também chamada de Mato Grosso). A primeira era o principal núcleo comercial da província e o mais antigo estabelecimento colonial, com relações com Goiás, São Paulo e Rio de Janeiro. Já Vila Bela havia sido construída para ser capital, no contexto do Tratado de Madri, que garantia este território a Portugal, e tinha relações com o Grão-Pará, por meio dos rios da Amazônia, e com províncias espanholas no que é atualmente a Bolívia.

Na primeira década do século XIX, foi liberado o povoamento da região do Alto Rio Paraguai, o que provocou um pequeno rush minerador, com a exploração de diamantes, resultando na criação da vila de Diamantino. Boa parte dos povoadores vieram de Vila Bela, despovoando-a. Os governadores passaram a residir em Cuiabá, o que fortaleceu esta localidade. Cuiabá, na prática, era a capital, embora legalmente não fosse.

Quando chegam as notícias da Revolução do Porto, a capitania passava por uma estagnação econômica, com o esgotamento da mineração, dificuldades de ligação com o restante da América Portuguesa, e tinha cerca de 30 mil habitantes, destes, cerca de 2/3 na região de Cuiabá.

Em junho de 1821, as bases da Constituição são juradas, de forma tranquila. Em 20 de agosto, o governador Francisco de Paula Maggesi Tavares de Carvalho é deposto. É eleita uma Junta de Governo Provisória, conforme previsto pelas Cortes de Lisboa, mas essa eleição é feita somente em Cuiabá, sem representantes de Vila Bela. A Junta é reconhecida em Cuiabá, mas não em Vila Bela, que forma outro governo no dia 11 de setembro. Assim, de setembro de 1821 a agosto de 1823, existiram duas Juntas de Governo que diziam governar todo o Mato Grosso, e pediam sua legitimidade junto às Cortes de Lisboa e, depois, ao governo do Rio de Janeiro.

Nesse interim, o comandante militar de Vila Maria, atual município de Cáceres, João Pereira Leite, tomou o partido de Cuiabá. Vila Maria produzia alimentos e armazenava armas e munições para as tropas da fronteira. Esse acontecimento levou ao isolamento de Vila Bela em relação ao centro-sul do Brasil, restando apenas o caminho fluvial amazônico como alternativa. Apesar de repetidas ameaças de um conflito armado, este não ocorreu. Até o final de 1822, o governo do Rio de Janeiro parece não saber da existência de uma Junta em Vila Bela.

Com a independência brasileira, Cuiabá presta juramento a Dom Pedro como imperador em 22 de janeiro de 1823. No início de 1823, chegam à província ordens da Corte para que fosse eleito um novo governo, incluindo todas as localidades, que deveria tomar posse em Vila Bela. Esse fato levou a Junta de Vila Bela a aderir à independência em março de 1823. O governo unificado toma posse em agosto de 1823, em Vila Bela. Em abril de 1825, toma a decisão de incorporar a província boliviana de Chiquitos ao Império Brasileiro. A decisão, desautorizada por Dom Pedro, que temia uma guerra com a Bolívia, indispôs o imperador com o governo, e influenciou a decisão do primeiro presidente da província a tomar posse em Cuiabá. A questão da capital somente seria resolvida em 1835, a favor da atual capital mato-grossense.

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