Os
embates políticos na província do Mato Grosso relacionados à independência do
Brasil tiveram como principal foco de tensão a disputa pela capital entre as
cidades de Cuiabá e de Vila Bela da Santíssima Trindade (também chamada de Mato
Grosso). A primeira era o principal núcleo comercial da província e o mais
antigo estabelecimento colonial, com relações com Goiás, São Paulo e Rio de
Janeiro. Já Vila Bela havia sido construída para ser capital, no contexto do
Tratado de Madri, que garantia este território a Portugal, e tinha relações com
o Grão-Pará, por meio dos rios da Amazônia, e com províncias espanholas no que
é atualmente a Bolívia.
Na
primeira década do século XIX, foi liberado o povoamento da região do Alto Rio
Paraguai, o que provocou um pequeno rush minerador, com a exploração de
diamantes, resultando na criação da vila de Diamantino. Boa parte dos
povoadores vieram de Vila Bela, despovoando-a. Os governadores passaram a
residir em Cuiabá, o que fortaleceu esta localidade. Cuiabá, na prática, era a
capital, embora legalmente não fosse.
Quando
chegam as notícias da Revolução do Porto, a capitania passava por uma
estagnação econômica, com o esgotamento da mineração, dificuldades de ligação
com o restante da América Portuguesa, e tinha cerca de 30 mil habitantes,
destes, cerca de 2/3 na região de Cuiabá.
Em
junho de 1821, as bases da Constituição são juradas, de forma tranquila. Em 20
de agosto, o governador Francisco de Paula Maggesi Tavares de Carvalho é
deposto. É eleita uma Junta de Governo Provisória, conforme previsto pelas
Cortes de Lisboa, mas essa eleição é feita somente em Cuiabá, sem
representantes de Vila Bela. A Junta é reconhecida em Cuiabá, mas não em Vila
Bela, que forma outro governo no dia 11 de setembro. Assim, de setembro de 1821
a agosto de 1823, existiram duas Juntas de Governo que diziam governar todo o
Mato Grosso, e pediam sua legitimidade junto às Cortes de Lisboa e, depois, ao
governo do Rio de Janeiro.
Nesse
interim, o comandante militar de Vila Maria, atual município de Cáceres, João
Pereira Leite, tomou o partido de Cuiabá. Vila Maria produzia alimentos e
armazenava armas e munições para as tropas da fronteira. Esse acontecimento
levou ao isolamento de Vila Bela em relação ao centro-sul do Brasil, restando
apenas o caminho fluvial amazônico como alternativa. Apesar de repetidas
ameaças de um conflito armado, este não ocorreu. Até o final de 1822, o governo
do Rio de Janeiro parece não saber da existência de uma Junta em Vila Bela.
Com
a independência brasileira, Cuiabá presta juramento a Dom Pedro como imperador
em 22 de janeiro de 1823. No início de 1823, chegam à província ordens da Corte
para que fosse eleito um novo governo, incluindo todas as localidades, que
deveria tomar posse em Vila Bela. Esse fato levou a Junta de Vila Bela a aderir
à independência em março de 1823. O governo unificado toma posse em agosto de
1823, em Vila Bela. Em abril de 1825, toma a decisão de incorporar a província
boliviana de Chiquitos ao Império Brasileiro. A decisão, desautorizada por Dom
Pedro, que temia uma guerra com a Bolívia, indispôs o imperador com o governo,
e influenciou a decisão do primeiro presidente da província a tomar posse em
Cuiabá. A questão da capital somente seria resolvida em 1835, a favor da atual
capital mato-grossense.
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